Esporte / Paraíba

De feirante a melhor jogador: paraibano que largou o futebol para ajudar a mãe gari vira estrela da Ponte Preta

person access_timePostado em 21/08/2020 09:08 chat_bubble_outline

João Paulo com a mãe, a esposa e o filho na premiação do Catarinense em 2019 — Foto: Arquivo Pessoal

A cena se repetia diariamente no bairro Buraco do Afonso, periferia de Guarabira, na Paraíba: era chegar da feira, depois de trabalhar ao lado da mãe e das três irmãs, que o jovem João Paulo tomava um banho, comia alguma coisa rapidamente e saía para jogar bola na rua.

A vontade dele sempre foi virar jogador profissional, mas a realidade, por vezes, obrigou que o sonho ficasse em segundo plano. Para ajudar a mãe gari a sustentar a família - os pais se separaram quando ele ainda era criança, foi feirante até os 20 anos e precisou largar o futebol por um tempo.

Ele não desistiu e realizou aquilo que sempre desejou: hoje, aos 30 anos, é o camisa 10 da Ponte Preta. Em alta na Macaca, foi eleito recentemente o melhor meia do Campeonato Paulista e entrou para a seleção.



- Eu trabalhei desde os 11, 12 anos com a minha mãe e com as minhas três irmãs vendendo verduras, frutas, legumes e temperos na feira. Foi uma batalha grande, mas é gratificante olhar para trás e ver o que conquistei. Minha mãe não tinha trabalho fixo. Tinha de ajudá-la. Sempre quis ser jogador, mas o sonho às vezes ficou um pouco distante. Só que eu sempre acreditei. Agradeço muito a Deus e à minha família por sempre me apoiar. Foi bastante difícil, mas hoje sou realizado.

"Quem diz onde você pode chegar é você mesmo. Ninguém pode colocar limite na sua caminhada. Vai ter dificuldade, mas quando você conquista é ainda mais gratificante. Esse sonho eu pude realizar, e estou seguindo até o dia que Deus permitir".

As responsabilidades precoces não possibilitaram que João Paulo fizesse categorias de base. Ele jogava na várzea, e depois de uma tentativa frustrada em 2008 de entrar para um time, o agora meia largou o futebol para se dedicar exclusivamente ao trabalho de feirante, viajando até o Rio Grande do Norte para vender frutas. Ficava fora de casa de terça a domingo.

João Paulo em ação pela Ponte — Foto: Álvaro Jr/ Ponte Press

João Paulo em ação pela Ponte — Foto: Álvaro Jr/ Ponte Press

A rotina durou aproximadamente três anos. Em 2011, quando estava perto de completar 21 anos, surgiu uma oportunidade no Desportivo Guarabira, time da sua cidade.

- Um diretor falou para mim que teria uma peneira. Aí a chama reacendeu. Ela nunca apagou totalmente, mas como tinha de ajudar a minha mãe com as coisas de casa, ficou de lado um pouco. Mas quando surgiu essa chance, conversei com todos e disse que queria. Minha mãe, que tinha passado num concurso público e estava esperando ser chamada, ficou meio receosa num primeiro momento. Mas eu peguei e fui. Na estreia já fui titular, fiz gol, com toda a minha família assistindo.

 João Paulo foi feirante até os 20 anos  — Foto: Luiz Guilherme Martins/ PontePress

João Paulo foi feirante até os 20 anos — Foto: Luiz Guilherme Martins/ PontePress

A gratidão pelo apoio da mãe, do pai, das irmãs e da esposa aparece em cada declaração de João Paulo, mas há uma pessoal em especial que ele considera o seu maior incentivador na caminhada até virar jogador de futebol:

- O meu primo Carlos Antônio. Eu o considerava praticamente um tio, porque foi criado pela minha mãe. Ele jogava na várzea e me levava para os jogos, sabia que eu gostava de futebol. Eu ficava atrás das traves brincando com as outras crianças enquanto ele jogava. Foi uma das pessoas que mais me incentivou. Jamais vou me esquecer. Infelizmente ele acabou falecendo ano passado. Conseguiu me ver jogar pela televisão, mas eu queria mesmo que me visse do estádio. Só que aconteceu de Deus chamar ele.

Como João Paulo se profissionalizou em 2011, a carreira dele tem nove anos de duração. Depois do Desportivo Guarabira, passou por Globo-RN, Coruripe-AL, Estanciano-SE, Sergipe, ASA, Tombense, Paraná e Santa Cruz, entre outros, mas passou a ganhar destaque a partir de 2018, quando defendeu o Atlético-GO.

A última temporada pelo Avaí foi a mais positiva até aqui: campeão catarinense, prêmio de craque do estadual e dez gols e cinco assistências em 49 jogos durante o ano.

 
 

- Quando eu me profissionalizei, tinha a esperança de conseguir coisas maiores e melhores, mas eu não imaginava que seria tão rápido, até porque eu não fiz categoria de base. Estou muito feliz com tudo o que vem acontecendo ao longo desses anos.

Os números com a camisa da Ponte fazem de João Paulo o principal destaque individual do time em 2020 até aqui: é líder em número de jogos (20), minutos em campo (1.754), assistência (quatro) e vice-artilheiro, com cinco gols, ao lado de Bruno Rodrigues - um atrás de Roger. Neste início da Série B, já marcou duas vezes - uma delas um golaço contra o Vitória 

Golaço, aliás, não é novidade para João Paulo. Quem não se lembra da pintura contra o Santos pelas quartas de final do Paulistão, na Vila Belmiro? 

O momento também é especial fora das quatro linhas. João Paulo já é pai de Paulo Henrique, de seis anos, e espera pela chegada de Ester. O nascimento está previsto para dezembro.

- Está tudo dando certo na minha vida, graças a Deus. A gente sempre procurou fazer o melhor, com os pés no chão. Tenho uma base muito forte por trás de mim, com minha esposa, mãe, irmãs e pai sempre me fortalecendo a cada dia para eu procurar desafios maiores.

Com João Paulo em alta, a Ponte volta a campo nesta sexta-feira, às 21h30, contra o CSA-AL, no Majestoso, em busca da segunda vitória consecutiva para embalar na Série B.


Comentários